Eles morreram...e ressuscitaram!

Testemunhos polêmicos e surpreendentes de pessoas que morreram e ressuscitaram



Reportagem de Rosana Salviano Salabai


Que há vida após a morte, nenhum crente nega. Mas que alguém possa ter conhecido o lado de lá e voltado pra contar como é, nem sempre. Mesmo assim, há quem garanta que morreu e ressuscitou. São testemunhos de um milagre não muito bem compreendido no meio cristão e relatos que viraram objeto de estudo – embora o assunto ainda seja evitado no meio científico.

Era o dia 20 de agosto de 1986. O pastor batista João Carlos Marques, hospedado na casa de amigos, se preparava para um culto em Belém do Pará. De repente, o gaúcho de 54 anos começou a sentir o coração disparar, uma forte dor no peito e muita tontura. Sem conseguir falar, ele foi levado para uma cama e deitou-se. A partir daí, via as pessoas ao redor orando por sua vida. Mas via por outra dimensão. O pastor Marques começava ali uma fantástica viagem ao outro lado da vida. Ou melhor, ao Paraíso.

“Vi meu espírito sair do corpo e fui sugado por um túnel que percorri em alta velocidade”, conta. “Ao final dele, havia dois círculos, um branco e um escuro, que depois fui entender que eram as portas de entrada do Paraíso e do ades”. Segundo pastor Marques, ao entrar através do círculo branco, ele começou a ouvir vozes e entoações de glórias, honra e louvor. Mas novamente foi sugado, dessa vez, em espiral. “No topo desse túnel, encontrei um salão de beleza indescritível, cheio de pedras preciosas e onde havia paz e alegria inexplicáveis”. Ali, o pastor conta ter visto um enorme coral, anjos e uma outra porta, maior e mais luminosa, de onde viu sair um grupo de pessoas com vestes resplandecentes que abriam caminho para um homem de semblante iluminado e roupas ainda mais brilhantes: Jesus. “Eu o reconheci pela marca dos cravos quando ele me abriu os braços”, relata. A partir daí, o próprio Jesus o acompanhou no passeio e revelou alguns mistérios, como por exemplo, a nova Jerusalém, o jardim do Éden e o fato que marcaria o início da contagem regressiva para sua volta: a queda do muro de Berlim, ocorrida três anos depois – uma das provas, segundo ele, de que sua experiência foi sobrenatural e real. “Jesus também me falou sobre o fim da União Soviética, e quando essas duas profecias se tornaram realidade, recebi até telegrama de pastor se desculpando por ter duvidado do meu testemunho”, diz.
Duvidar de testemunhos assim, aliás, é comum. “No Novo Testamento são apenas três relatos de ressurreição, fora a de Jesus”, argumenta o também pastor batista, Anselmo Rocha. “Creio que Deus ainda pode fazer isso, mas não dá pra achar que é coisa que acontece todo dia, é preciso discernir o verdadeiro do falso testemunho”. Como fazer isso? “Orando e prestando atenção nos propósitos da descrição do céu, inferno e outros detalhes contados por quem diz ter vivido essa experiência”, orienta. Da mesma opinião, o pastor assembleiano Zaqueu Ramos completa. “Tem que ver o porquê Deus mostraria tanta coisa e depois traria a pessoa de volta, não pode ser à ‘toa’ ”.

Em alguns casos, como o do bispo Salomão dos Santos, do Ministério Vida, do Rio de Janeiro, reviver tem mesmo um motivo especial: soa como “uma segunda chance”. Em seu testemunho, ele conta que era um “desviado” de igreja evangélica e, ao aventurar-se pelo mundo das drogas e da fama - é músico e durante alguns anos tocou em bandas conhecidas nacionalmente – deparou-se com a morte e foi parar no necrotério. Ali, ele também foi sugado e levado ao encontro de Jesus – embora não o tenha visto, apenas ouvido. “Fui ao Paraíso, que segundo o anjo que me conduziu, é o nosso lugar de descanso até que a noiva de Cristo seja resgatada”, diz. Ruas de ouro, um imenso coral, rios de águas cristalinas e um jardim de flores não conhecidas pelo homem natural fazem parte das lembranças do bispo desde aquele dia. Lembranças que, aliás, são ricas em detalhes, assim como as que tem o pastor Marques. Bispo Salomão carrega como evidência de sua morte três temperaturas no corpo, ocasionadas, segundo ele, pela “abertura” feita pelo médico legista.

Diferente dos que viram o Paraíso prometido por Jesus ao ladrão da Cruz, há quem diga que viu o outro lado, o inferno. “Era um lugar escuro e sombrio”, conta o agora pastor Rogério Cozza, ministro itinerante vinculado à igreja Assembléia de Deus. Após levar quatro tiros numa briga e parar num hospital, ele diz ter morrido e voltado à vida porque clamou pela misericórdia de Deus. “Jesus me concedeu esse milagre porque queria que eu testemunhasse”.

Da mesma forma, pastor Kenneth Hagin, famoso pregador, já falecido, contou ter vivido uma experiência parecida antes de dedicar sua vida a Deus. Em abril de 1933, quando ainda jovem e doente, seu coração parou e a sua alma saiu do corpo. Em vários de seus livros ele narra sua dramática passagem pelo inferno e a volta súbita mediante uma ordem de Jesus, que o retirou de lá.

Quase-morte
Os céticos bem que tentam, mas explicar com coerência esses relatos nem sempre é possível. Para um cientista, falar sobre alma ou espírito é lidar com campos desconhecidos e nem sempre bem-vindos, como a Teologia. "Essas experiências vão ao encontro da percepção das religiões de que a morte é uma travessia, uma porta, não um muro", explicou o teólogo e filósofo Leonardo Boff ao analisar a questão numa revista científica.

Atualmente, a Psicologia, a Medicina e a doutrina Espírita falam em “experiências de quase-morte” (EQM), que não chega a ser um testemunho de morte e ressurreição mas são relatos de pessoas que dizem ter visto seu espírito ou sua alma sair do corpo e voltar – em alguns casos, após percorrer um túnel e encontrar “seres de luz”. O termo EQM originou-se em 1975, quando o parapsicólogo norte-americano Raymond Moody vendeu mais de 10 milhões de cópias de seu livro Vida Após a Vida, com depoimentos de pessoas que tiveram morte clínica mas voltaram a viver.

Para o neurologista Antero Baccarin, a EQM pode ser explicada facilmente. “Quando uma pessoa está anestesiada ela pode ter alucinações e imaginar o que ocorre em sua volta; a grosso modo, é tudo uma reação de seus neurônios", diz. “Até aquela sensação de paz pode ser fruto da liberação de endomorfinas no organismo”. Já quando não há estímulo cerebral, por exemplo, em pacientes mortos clinicamente, quem faz esse papel pode ser um desconhecido. “Talvez o cérebro tenha uma forma de projetar a consciência que ainda não descobrimos”.

É interessante notar, no entanto, que um dos estudos do psicólogo inglês K. Ring sobre os efeitos da EQM constatou que a maioria daqueles que passam por esse tipo de experiência muda sua orientação espiritual e religiosa e passa a viver mais próximo de Deus. Será essa uma prova do que se encontrou do outro lado?

Poder da oração
Um ponto comum nos testemunhos daqueles que foram ao paraíso ou viram a porta do Inferno e voltaram é a oração. No caso do pastor João Carlos Marques, ele diz ter visto seus intercessores orando e o próprio Jesus teria lhe falado que estava ouvindo e por isso lhe mandaria de volta. Bispo Salomão dos Santos, por sua vez, ressalta a intercessão da mãe, que nunca desistira de orar por sua vida e chegou a dizer aos médicos que ele ressuscitaria. Assim também foi com o pastor Rogério Cozza e com Kennneth Hagin, que lembraram da oração de suas avós.

“Creio no poder da oração, não podemos limitar Deus, seus milagres e seu Senhorio sobre nossas vidas”, diz o pastor presbiteriano Adilson Ribeiro. Ele próprio, aliás, diz ter experimentado esse poder que a oração tem para levantar mortos. “Orei por uma pessoa na U.T.I., em estado grave, e ali, na minha presença, ela chegou à pressão arterial zero”, conta. “Esse senhor estava morrendo, mas na época ele estava afastado de Deus e eu clamei para que o Senhor lhe desse uma chance de acertar sua vida; na mesma hora ele deu um pulo e subitamente reviveu, permanecendo vivo por mais dois anos, exatamente o que precisou para reestruturar seus relacionamentos”.

Oração também foi o que trouxe de volta à vida a cantora Cassiane. De acordo com sua mãe, Castalha Santana Santos, quando bebê, Cassiane passou 12 dias acometida por uma enfermidade não detectada pelos médicos e morreu. “Sai do hospital com o atestado de óbito e a Cassiane enrolada numa manta, queria procurar outro médico para ter certeza daquilo”, explica. “No caminho, eu e a amiga que me acompanhava fomos à uma irmã que orou assim: ‘Deus, se o Senhor ressuscitou Lazaro depois de quatro dias, imagina se não pode ressuscitar essa criança que morreu há apenas algumas horas’, e, no mesmo instante, sentimos a forte presença de Deus e ela se moveu”. Segundo dona Castalha, naquele dia o Senhor ainda disse que onde Cassiane não pudesse ir, sua voz iria. Alguém duvida?

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